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Rapidão

Queria vir aqui e falar uma coisa rapidinho.



Dia desses, eu estava saindo do metrô, quando tropecei e caí. Mas não caí pouco não, caí muito, caí mesmo, dei uma leve voada antes de cair, o óculos foi para um lado, a bolsa para o outro, e passei aqueles longos segundos eternos no chão antes de umas 5 pessoas pararem para me erguer. Me sentaram no chão. Achei que tinha quebrado o braço e rasgado a minha única calça jeans inteira no joelho - felizmente, nem um, nem outro. Mas enquanto estava parada ali, chorando de dor no braço, e pensando na vida, vi uma perspectiva incrível. Caí no chão, lasquei meu joelho, esmaguei meu braço, ralei minha mão. Mas pelo menos não torci o pé, e já me senti muito melhor por causa disso.

A vida, né? A gente aprende a ver o lado bom das coisas.

Contei para as pessoas, e todo mundo deu risada, porque não se costuma cair com facilidade depois de adulto. Esse ano caí no box, escorregão pesado, daqueles das pernas ficarem no ar, e você cair de costas em câmera lenta e achar, com certeza, que você morreu. E esse dia aí na rua, no metrô de Botafogo. A minha pressão não baixou e não tinha um buraco enorme: eu simplesmente estava andando, e no segundo seguinte, não estava mais. Não tem explicação.

Mas sempre que caio (o que acontece com alarmante frequência), passo uns meses andando olhando obsessivamente para o chão, com o intuito de não cair novamente. Sempre ando olhando para o chão, mas depois de pequenos desastres, não consigo olhar para outro lugar além dos meus pés e onde eles estão pisando. E eis que, desde o dia que caí para cá, já encontrei 110 reais perdidos no chão. Um dia 100, no outro 10. Bolos de dinheiro no chão, onde os que nunca caem nunca se preocupam em olhar.

E então? Se isso não é uma grande metáfora da vida, eu não sei o que é.


O Caso da Estante (20/31)

Uma semana depois de eu ter me mudado para o Rio, eu soube que o Renne havia acabado de passar num concurso e estava vindo para cá também. Quem acompanhou o blog do projeto meu e de MB já deve conhecer o Renne, nossa vela mais presente e duradoura - o jeito que ele mesmo encontrou de se definir quando estava discursando no nosso casamento. Enfim, Renne, melhor amigo, estava se mudando para o Rio, tudo parecia perfeito.

Meses depois de já estar morando aqui, o Renne decidiu alugar um quarto e sala em Copanema, e eu estava pronta para prestar os meus serviços de amiga e personal decoradora, e foi o que fizemos. Uma coisa que vocês precisam saber sobre o Renne é que ele é a pessoa mais indecisa que eu conheço. Eu sei que tem gente que vai dizer, nossa, claro que não, mas o fato é que sim, ele provavelmente é mais indeciso que você. O Renne sempre pede o sorvete com três bolas, mesmo já estando cheio, porque ele não vai conseguir se desfazer de uma (pistache, doce de leite e gorgonzola, certo?). O Renne é o pior tipo de indeciso, porque ele é um indeciso convicto.

Ele decidiu que ia comprar um jogo de pratos de manhã. De tarde ele comprou. No dia seguinte, ele devolveu. Para também não difamar o meu amigo, digamos que algumas outras coisas sofreram do mesmo destino (não direi quantas). Foi por isso que ele comprou uma mesa de jantar redonda e enorme para um apartamento que não cabe nada, e no mesmo dia ele decidiu trocar.

Estávamos eu e MB na casa de Renne quando ele nos chama para ir até a Tok Stok, que era pertinho. Coisa de 3 quarteirões. MB e ele iriam levar a mesa de volta, já que o Renne havia trazido sozinho e tinha sido a maior moleza. Ok, munidos da mesa, fomos até a Tok Stok, caminhada leve, os dois meninos levando a mesa, rindo, cantando. Chegando lá, Renne já estava resoluto que queria a estante X.

A estante X para montar em casa estava 100 reais mais barata. Era um dinheirão, ok. Então MB e Renne pensaram: se trouxemos a mesa, podemos levar a estante, claro. Perguntamos para um vendedor: "olha só, é meio pesada, mas dá pra vocês levarem sim". Ok, então né? Ainda economizamos 100 reais.

Continuamos passeando na Tok Stok, compramos dois jogos de edredon, uma bandeja de café da manhã na cama (lua), e algumas outras coisinhas. Descemos sorrindo e cantando para buscar a estante. Ia dar tudo certo, são só quatro quarteirões.





Só que a caixa da estante era maior que MB, que já é alto, e pesava 40kg. 40. kg. Mas tudo bem, são só três quarteirões, certo? Certo? Então eu fui levando as milhões de compras que a gente resolveu fazer, e os meninos carregando a estante. Tudo parecia lindo.

Só que não eram três quarteirões. E não dava para andar um inteiro sem ter que parar e fazer uma pausa, MB talvez uns bons 30cm mais alto que o Renne (exagero), aquele negócio de mil metros e meia tonelada, andando pelas ruas de Copacabana, atrapalhando o trânsito. Já derrotados, suados e sem blusa depois de ter carregado o peso morto por apenas dois quarteirões, a gente avista o Zona Sul, que é um mercado charmoso daqui. E do lado de fora, um carrinho de entrega de compras, e outro carrinho de supermercado.

Renne entrou correndo, perguntando o que tinha que fazer para pegar aquela bicicleta de entrega (vocês já viram isso? Não sei bem explicar o que é, mas é uma bicicleta com uma grade na frente para entregar?), e a moça disse, muito polidamente, que não poderia, mas o carrinho de compras podia ser levado, caso deixassem a identidade. Renne prontamente entra correndo no supermercado, compra UM iogurte, e pede o carrinho alugado. Não sei como a mulher aprovou isso.

Enquanto isso, eu e MB havíamos dado a volta no quarteirão, para não colocar a estante dentro do carrinho na frente do supermercado e correr o risco de alguém achar ruim (por que eles achariam, certo?). Então ficamos do outro lado, esperando, e Renne chegou com o carrinho, e a vida parecia boa novamente: iríamos deslizando suavemente pelo resto do caminho até em casa, a estante bem encaixadinha em cima do carrinho, tudo certo.

Se a estante coubesse no carrinho, claro.

A única forma de fazer ela caber era na horizontal, em cima do carrinho, cada menino segurando uma ponta e eu empurrando. Juntos, formávamos uma barreira de 2m, ocupando toda a calçada de uma ruazinha de Copacabana, quando muito. Mas a rodinha do carrinho enganchava. Era pesado. Tinham árvores no meio do caminho, e lá pelas tantas, tinha um barzinho com pessoas sentadas em mesinhas na calçada. Não houve dúvida: sentamos também. Tomamos duas cervejas enquanto pensávamos na grande merda dessa vida que havíamos feito. Conferi o google maps. Ainda faltavam cinco quarteirões. Cinco. Cinco. Não eram dois?



Todos passavam pela nossa mesa e riam do arranjo do carrinho com um iogurte, uma estante, dois rapazes suados, e eu carregando duas sacolas enormes cheias de coisas. Um senhor deu uma risadinha e disse:
- E o trabalho que vai ser montar depois, né?

Nem vem, cara, nem vem. Terminamos a cerveja. Continuamos nossa jornada. Tivemos que atravessar ruas com muito movimento. Em alguns momentos, a estante ia caindo e conseguimos segurar. Finalmente, um quarteirão da casa do Renne e literalmente DUAS HORAS DEPOIS, caiu do céu uma alma caridosa que perguntou se a gente não precisava de ajuda. Sim, sim, SIM! Os meninos e o cara levaram a estante lépidos e fagueiros, enquanto eu coloquei as duas sacolas no carrinho e continuei meu caminho. A roda enganchou num buraco. O carrinho virou no meio da rua. Lá se vão os edredons, e a nossa bandeja, no chão, além de um hematoma na minha canela que demorou três semanas para sumir.


Chegamos no prédio. Não cabia no elevador. Respiramos fundo. Não, pera, coube na diagonal. Subimos, eu fui na frente abrir a porta de casa, quando escuto a gargalhada dos dois, tentando tirar a estante do elevador. Sete quarteirões e duas horas depois, eles derrubam a caixa exatamente na porta de casa. Colocamos a estante na sala, refletindo sobre esse plano magnífico que tivemos, mas não por muito tempo: tinha que devolver o carrinho do supermercado no mesmo dia, e ele fechava em 10 minutos. Eles voltaram correndo, e eu fiquei observando aquela caixa de papelão encostada na parede, refletindo sobre o universo e tudo mais.

E ai do Renne se ele decide trocar essa estante por outra coisa.

O Misterioso Dr. Gabriel Pinheiro (14/31)

A primeira vez que aconteceu, fiquei surpresa. Não era uma corrente, daquelas com meia centena de outras vítimas encaminhadas: era um email direto para mim, de um indivíduo, percorrendo toda a rede da internet até chegar no outro. No entanto, ao que parece, eu fiquei no caminho.


perai.. tem alguma coisa errada aqui


Com os emails seguintes, consegui identificar. Dr. Gabriel, médico, provavelmente cardiologista, que com freqüência recebe uma planilha dos plantões, convites para palestras e confirmação na inscrição do 16o Congresso Regional de Doenças do Coração. Algumas vezes respondi o email, com um texto que vai mais ou menos assim: acho que esse email veio errado, sou uma designer de Fortaleza, e não tenho absolutamente nenhum interesse em saber que o Dr. Paulo não irá dar plantão amanhã.

Mas a coisa foi tomando um rumo desproporcional, e enfermeiras, e outros médicos, e praticamente todas as pessoas do mundo resolveram mandar emails para o Dr. Gabriel. E eu não posso deixar de me perguntar: quem é o Dr. Gabriel? Qual o email dele? Sua letra é tão feia que ninguém consegue entender, ou ele acredita que o email dele realmente é gabrielapinheiro e sai distribuindo esse endereço para todo mundo? Porque uma coisa é a enfermeira Nurse me enviar uma solicitação de receita. Outra é o recebimento de um email confirmando uma inscrição, ainda com aquela mensagenzinha capciosa no final: se você não é Gabriel Pinheiro, desconsidere. Fácil você dizer.

msg p vc


Um dia, esse ano, o Dr. Gabriel resolveu colocar o email na lousa depois de uma das aulas que ele ministra (não sei bem qual), falando para os alunos encaminharem o currículo para seleção de uma vaga de fisioterapeuta. Depois desses dia, durante aproximadamente um mês, eu recebia em média de 5 a 7 currículos por dia. Uns mal diagramados, outros com erro, gente que não sabe se apresentar no corpo do email, um horror. No começo, me compadecendo de estar momentaneamente desempregada e conhecendo a frustração de enviar um currículo e não receber sequer uma resposta, respondi para as primeiras 15 pessoas. Olha, você pegou o email errado. Aproveita e avisa para ele. A situação acabou perdendo as proporções e eu perdendo a paciência (gente que manda: recebeu o curriculo????? deu uma olhada????? Eu fui aprovada para a vaga???? Quando devo ir????), então alguns eu respondi: não. E para uma moça extremamente irritante eu falei para ela ir me procurar na quinta-feira no Hospital.

Pensei em responder a todos, marcando no mesmo dia e na mesma hora, e aparecer lá também com uma câmera de vídeo e registrar tudo, fazendo um flashmob.

perai deixa eu anotar... é gabriel... a... pinhe... @... hot o quê?

Depois dessa avalanche de currículos, entrei em contato com o Hospital (!) para avisar ao Dr. Gabriel que essa história já estava virando uma palha assada. Mas não obtive resposta.

Ano passado recebi um email do pai do Dr. Gabriel (ele é jovem, pelo visto). Eles haviam brigado, e o Dr. tinha ido embora sem falar com o pai. Era uma mensagem muito comovente, e, pasmem, assinada por um tal de Nilton Cesar Pinheiro. Meu pai é Antonio Cesar Pinheiro. Respondi o email com carinho, dizendo que eu não era o filho dele, mas que esperava muito que a mensagem tivesse chegado ao destinatário certo. O Sr. Nilton me respondeu agradecendo, e desejando que eu tivesse gostado da mensagem. Eu gostei, viu, Sr. Nilton! E adorei a coincidência.


deixa eu encaminhas uns pps pro gabriel que ele vai gostar ctz

Mas eis que hoje recebo um email, curto e grosso:
"Me traz dois twin packs de speed stick pra mim? E dá uma olhada em jogos do xbox também. Se achar alguma coisa te falo."

Então.
Por favor, Dr. Gabriel, traga os speed sticks do Thiago.

E quando voltar de viagem, vê se aprende qual é o seu email.

25 anos. Mora no Rio de Janeiro, é carioca de alma, mas cearense de coração. É designer e está tentando se encontrar nesse mundo. Sou casada com meu melhor amigo, o Marcelo Bernardo, e mãe da Dindi the Boston.

Gosto de ler, de dormir de rede, de inspirações repentinas e de petit gateau. Mas o mundo seria muito melhor sem aliche gente que fura fila. Ah, e de vez em quando eu desenho.

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Esse blog está vestido com as roupas e as armas de Jorge, porque ninguém há de copiar esses textos e ilustrações sem dar o devido crédito.