Sobre o Ter
(07/30)
Tive vontade de gritar, de pular, um assomo de felicidade tomando conta de mim. É engraçado como, em pouco tempo, nossa vida consegue mudar devido a presença (ou à falta) de uma pessoa. Quis beijá-lo e abraçá-lo, mas meus carinhos foram interrompidos pelo enfermeiro, que agora me empurrava para fora do quarto, sua mão fechada firme em meu braço.
Cheguei ao segundo andar, a imagem de Alex com fios no peito aberto voltou a me atormentar, e eu desejei ter lembrado de tudo que ele tinha me dito sobre o experimento – mas não, só conseguia ouvir sua voz rouca, linda, chamando meu nome. Alguma coisa como uma seleção para entrar num estágio... Ou seria uma bolsa? Ou ainda um trabalho da faculdade? "A nossa casa". Encontrei o quarto onde ele estava segundos depois, encontrando-o vazio, e foi como se o mesmo vazio tomasse conta de mim.
– Centro de Pesquisas Humanas em Zumbot – li em voz alta, tentando assimilar aquilo – Onde já vi essa palavra antes?
PS: Essa história continua! Sim! Você pode ver o capítulo anterior no blog da Rafinha, e o próximo vai sair daqui a um dia no blog da Nathy. O que são Zumbots? Onde eles vivem? Onde está o Alex? Esse mês, na Máfia.
PS2: Estou viva, dizem.
O início
Seis coisas que eu gostaria de fazer e ainda não fiz
Nesses últimos meses viajando como uma louca, notei o quanto eu gosto de ficar em lugares amplos, silenciosos e na natureza. É meio estranho e eu nunca pensei que fosse ser esse tipo de gente, mas simplesmente, nada melhor do que uma paisagem linda e muda, o vento e eu. Sempre achei lindo o céu, mas nunca consigo ver as estrelas direito... Quando tinha uns 11 anos, eu estava na minha casa de praia com minha melhor-amiga-pra-sempre (no ano que ela morou aqui) e nós colocamos colchões em cima do carro do meu pai, apagamos todas as luzes e ficamos vendo. Tinha estrelas e foi mágico, mas não tinha todas as estrelas. Então... quero um dia estar num lugar (montanha? deserto?) e ver todas as estrelas me abraçando.
Ocean Sky from Alex Cherney on Vimeo.
É tão... lindo que é irreal! Isso não é photoshop? Is this real life?
2. Acampar perto de algum lago (num país de primeiro mundo)
Talvez tudo tenha começado com o Pateta - O Filme (meu filme favorito enquanto criança junto com Sonho de Verão e Anastácia). Talvez seja culpa só da minha viagem, ainda voltando à minha recém-descoberta paixão pela natureza, descobri que amaria acampar. Perto de um lago. Porque aqui tem muitos acampamentos festas em encontros, acampamento durante o carnaval com a galera, etc. Eu quero um acampamento sem gente barulhenta e jeito de encontro universitário, quero um acampamento numa paisagem linda, em que eu possa fazer uma fogueira, possa ficar observando, possa dormir vendo as estrelas e acordar vendo o orvalho. E sem o medo de ser sequestrada/assassinada a qualquer instante. Ok, vi muitos filmes e li muitos livros, mas viajando pelos Grandes Lagos do Reino Unido, vi várias famílias fazendo isso... Ou seja: é real. É possível. E vai acontecer.
Improvável, mas não totalmente impossível
3. Morar fora durante alguns anos
Penso na Austrália ou no Canadá, que são países bons, organizados e receptivos, que a moeda local não é absurdamente mais cara que o real e também não vão te julgar por estarem roubando os empregos (na minha cabeça, pelo menos). Mas só se for com meu sol-e-estrelas, porque né. Sem ele não tem nem sentido. Fora a liberdade de sair de casa, vivenciar outra cultura, sair um pouco do Brasil... Vamos lá, ainda vai acontecer.
4. Aprender a fazer coisas de mulherzinha: me pentear direito e fazer as unhas

Esse ano investi em produtos capilares e em acessórios, perdi horas da minha vida vendo vídeos de tutoriais no youtube para aprender a ajeitar o meu cabelo. Meu cabelo é uma coisa assim, abusada, que tem dia que está cacheado, outro está inflado e sem forma, no outro está liso-lindo-com-as-pontas-onduladas, outro dia está um rato morto. E, venhamos e convenhamos, eu aprendi a fazer tranças, mas tirando o dia da semana que ele resolve estar lindo, só saio de casa com o cabelo preso. No que alguns chamam de coque prodrinho, mas eu chamo de cocó, ou então de rabo de cavalo (e o rabo as vezes está lindo, as vezes cacheado, as vezes um balão). Preciso aprender a usar uma chapinha, uma escova, um baby liss, e ser diva sempre.
E simplesmente, não consigo pintar as unhas da mão direita. Mas pelo menos aprendi a me maquiar, graças a Dia de Beauté, a Marina Smith e a Julia Petit.
5. Fazer uma roadtrip
Com direito a muitas músicas lindas, fotos magníficas, o sol nascendo na estrada, diversão do começo ao fim e histórias para eu me lembrar pra sempre. E aí nem precisa ser fora não, pode ser pelas praias do Nordeste, pode ser pra onde for... Desde que seja mágico. Mas, para isso, eu preciso perder o medo de dirigir (tirei a carteira, passei três meses viajando e simplesmente voltei a estaca zero... ainda dirijo mal pra c###lho), afinal, regra básica da roadtrip é a alternação da direção.
6. Publicar meu livro
Porque ele já está escrito há anos, e eu sou perdidamente apaixonada por ele. E felizmente não estou sozinha, porque escrevi inteiro com a Monique (melhor-amiga-para-sempre - e, incrivelmente, nós escrevemos igual), então compartilhar um sonho como esses é um bom começo. Esse ano fizemos alguns progressos quanto à publicação, então, quem sabe no ano que vem isso não se realize?
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Mas ainda tem tanta coisa! Ver show da minha banda favorita (Foo Fighters), passear em Londres com meu namorado, me casar, ter vários puppehs, ter uma casa... Enfim. A gente sempre quer fazer alguma coisa. Esse é praticamente o sentido de viver.
Pottermore! Potter! More! Ahh! Brains!
Algumas pessoas podem nos chamar de excêntricos. Mas gênios sempre estão à frente das pessoas comuns, e ao contrário de algumas outras casas que podemos mencionar, nós achamos que você tem o direito de vestir o que quer, acreditar no que quer e dizer o que sente. Nós não somos intimidados por pessoas que marcham num ritmo diferente, nós as valorizamos!
Nunca tinha me pensado como uma Corvinal, mas agora tenho orgulho da minha casa. Tô afim até de comprar uma gravata com as cores e pendurar umas flâmulas no meu quarto.
Esses dois momentos de interação profunda valeram a experiência do Pottermore. Também é possível fazer poções (não muito bem; os gráficos não são perfeitos, vivem travando e o tempo de cura da poção é longo demais - de 85 a 100 minutos - pra nossa vida rápida), duelar (mas o serviço está fora do ar desde que entrei). E a melhor parte: o conteúdo extra! Sim! Disso que é feita a essência do Pottermore, encaixar todo o material que a Jo juntou todos esses anos, enquanto escrevia. No primeiro livro poucas informações extras foram dadas, e eu não vou dar spoiler, mas conhecemos tudo sobre a vida da prof. McGonagall!
E quem não conseguiu se cadastrar através da Pena para ser um beta tester, as inscrições para o Pottermore estão previstas para abrir no final de outubro, já já (quem sabe no Halloween?). Vai demorar um pouco para todos terem acesso à experiência, mas com certeza está mais perto do que longe! É só cadastrar o email e esperar :)
Carnet de Voyage
Pensando nisso, vou fazer um post bem cheio de imagens e sem muita lenga-lenga (dizem).
Antes de viajar, eu passei horas selecionando os cadernos que eu ia levar (alguém mais coleciona cadernos?), pensando nas possibilidades que eu ia comprar lá, e desejando fazer um diário ilustrado. Queria registrar tudo que acontecesse em forma de desenho... Mas cheguei lá e era uma rotina tão rápida que o máximo que eu conseguia anotar eram os meus gastos diários, e deixei a ideia de ilustrar pra lá.
Aí que eu fui com a meta de comprar os outros dois quadrinhos do Craig Thompson (meu ÍDOLO CRAIG TE AMO), e realmente fiz uma peregrinação em busca dos dois, que estavam quase sempre esgotados. Achei Chunky Rice tipo no segundo dia, mas penei pra encontrar Carnet de Voyage. Até que eu consegui!
Os quadrinhos do Craig MEGA me inspiraram, como sempre, e eu decidi perder a preguiça e desenhar.
Depois da aula, num dia, fui até Covent Garden e me sentei do lado de fora de uma feira. Estava de bobeira olhando as pessoas havia vários minutos, ouvindo a música dos músicos incríveis que tocam nas ruas de lá (vai saber, né)... Quando criei a coragem de começar a desenhar.
Nada de ilustrações bonitinhas e bem elaboradas: só um retrato meio tosco, meio torto e tentando ser fiel ao que me rodeava. Aí que foi super divertido e eu passei a tentar fazer um desenho todo dia (levando em conta que faltava uns 3, 4 dias pra eu ir embora).
No dia seguinte fui na British Library, ver as exposições e me proteger da chuva gelada. Impossível conseguir fazer com precisão a arquitetura meio moderna (não gosto de arquitetura meio moderna)... E também morro de preguiça de desenhar muitas pessoas num mesmo desenho.
Não parou de chover, e no dia seguinte fui andando sem rumo e me abriguei num café para tomar um chá inglês (que não tinha tomado ainda). Depois de passar um tempão lá, desenhando, notei que estava do lado da Trafalgar Square. Por causa da chuva, a praça estava deserta... E linda.
Me encostei numa parede, e mesmo numa posição mega desconfortável, comecei a desenhar. Rolou aquela preguiça de fazer o desenho todo, mas de pouquinho em pouquinho fui preenchendo o fundo (coisa que eu MAIS tenho dificuldade de desenhar), e colocando mais e mais detalhes... Desenhei até anoitecer.
E por fim, fui a Kew Gardens (em breve post sobre a minha relação de amor com parques e jardins). Escolhi um banco lindo perto de uma das enormes estufas, sentei e comecei a desenhar. Do nada, a chuva - eu parava - abria o sol - continuava a fazer as folhinhas - chuva de novo... Fiquei nessa até desistir e só ficar olhando mesmo.
Desenhar ao ar livre uma cena da vida real é incrível. Especialmente quando estamos acostumados a desenhar sentados corcundas dentro do quarto, e editar as imagens demoradamente (ou fazer o desenho inteiro) no computador. Sentar e desenhar, sem se preocupar com o tempo ou com nada, é lindo... Estando rodeado de pessoas ou só de plantas (péssimo dia que eu escolhi pra ir ao Kew Gardens, por sinal), é lindo.
Como um dos artistas que tocava na Trafalgar Square disse, no meio da música: Life is beautiful. Mas às vezes a gente só nota isso quando para um pouco.
(Ah, como eu queria ter desenhado desde o começo da viagem)
(E, ai, como eu falo muito)
Sobre a Central Saint Martins e os Cursos de Férias
Vou começar a série de posts sobre Londres com a pergunta que não quer calar: se vale a pena fazer os cursos rápidos na Central Saint Martins, como é lá, etc.
Resposta curta: É claro que vale.
Respost longa:
Vale, e vale muito. Depois que eu me formei eu fiquei pensando no que ia fazer, e enquanto não decidia por uma pós-graduação (encontrei algumas, só que eram fora da minha realidade financeira. Quando eu digo minha, sempre quero dizer da minha família, pois como recém-formada e desempregada, eu não tenho dinheiro próprio ainda), comecei a ver esses cursos de verão na Central Saint Martins e me interessar. O preço não era muito caro, tendo em vista o renome da universidade, que em Londres tudo é caro, etc, etc. Os cursos eram de 300 a 500 libras cada um, com duração de cinco dias e com mais ou menos cinco horas diárias e intensivas. Você pode ver a lista completa de cursos de férias de verão da CSM aqui. (também tem de páscoa, e outros... é só dar uma olhada)
Depois de muito pensar e repensar sobre o assunto, decidi fazer três: Digital Print on Textiles, Digital Fashion Illustration and Communication e Children's Book Illustration. Escolhi por afinidade e por questão de bater o cronograma, pois tinha vários cursos que eu tinha vontade de fazer, mas eram muito distantes uns dos outros, etc. Acabou que vários fatores pesaram na escolha, e não somente o fato de eu ter me interessado mais por esses três. Continuando.
O pagamento foi feito e eu recebi umas cartas confirmando cada curso, tudo muito bem explicado, com lista de materiais, mapinha do bloco onde eu ia ter aula, onde eu deveria levar o meu passaporte para eles verificarem que eu era uma estudante regularizada etc. Aí pronto, foi só me preparar para a viagem propriamente dita, e vamos nós a Londres! Na Imigração foi super certo, falei que estava indo estudar, mostrei as cartas que a CSM tinha mandado pra minha casa, e tudo jóia.
No primeiro dia de aula do primeiro curso (Digital Print on Textiles) eu já sabia onde ir, e embora o prédio fosse giga, tudo era muito bem organizado. A gente sentava numa sala enorme com todas as pessoas que iam começar cursos nesse dia, e os instrutores vinham um por vez chamar os alunos de determinados cursos. Tinha que ser assim, porque a universidade é velha e parece um labirinto.
Dos três cursos que eu fiz, dois foram magníficos. O de estamparia (o 1º) era espetacular em termos de infra estrutura. Todos os alunos tinham computadores ótimos, com tablets da wacom para desenhar à sua disposição, e maquinário especializado LIVRE para os alunos usarem. Eu me sentia como se tivesse numa fábrica, porque tinha simplesmente todas as máquinas que eu já tinha visto, todas com instruções de segurança e a possibilidade de você usar. Como era um curso de estamparia, estampamos um monte de tecidos, e não tinha nada de cota, ou quantidade máxima... Era quantos você quisesse fazer. É claro que muita gente aproveitou para imprimir trabalhos antigos e aproveitar para montar portfolio, mas eu não posso tirar a razão deles. Com uma oportunidade dessas, realmente. Além disso, a tutora era designer de estampas, e vendia para a Liberty e a Anthropologie, sabia como funcionava o mercado, e dava muitas dicas. Além do fato de Londres ser uma cidade central (por falta de termo), os ex-alunos da CSM são designers famosos que continuam tendo vínculos com a universidade, então se você está no seu primeiro ano de faculdade, tem a chance de trabalhar com grandes nomes da moda, etc. Isso definitivamente é um GRANDE ponto forte de estar estudando nessa universidade.
O de Ilustração de livros infantis também foi fantástico. A tutora era uma ilustradora MUITO talentosa, e tinha alguns livros publicados, então além de técnicas incriveis ela ainda passou muitas muitas muuuitas dicas sobre o mercado editorial. Me sentia inspirada por estar ali, aprendendo tudo aquilo. Cada turno (manhã/tarde) era com um tema diferente, uma nova técnica, e é claro que com o tempo corrido você pode não aproveitar tanto quanto deveria. Eu não fiz um desenho decente numa semana inteira. Mas o curso dá as ferramentas para que você possa construir depois, no aconchego da sua casa, e fazer um trabalho muito melhor agora que você já tem tudo aquilo de informação.
E por fim, o segundo curso que foi... Diferente. O tutor, dessa vez, não sabia o que estava fazendo. Ele trabalhava com outras coisas e não especificamente com ilustração, o nível das pessoas era MUITO diferente e acho que ele simplesmente não sabia como proceder. Acabou que também ficamos conhecendo sobre o mercado da moda, e também aprendi dicas valiosas sobre montar portfolio, apresentação de um trabalho, além de algumas técnicas novas no photoshop e básicas no illustrator (que eu não sei usar direito). Foi ruim? De forma alguma. Mas definitivamente não foi o que eu esperava, e com o dinheiro que eu gastei pagando esse curso, poderia muito bem ter feito outro que poderia ter tido mais proveito.
Ou seja: de qualquer forma, é uma experiência incrível. A dica que eu dou para quem pretende ir é escolher com muito mais critérios o seu curso, procurar alguém que já fez, e sobretudo googlar tudo sobre o seu tutor. Descobrir se ele está dando o curso certo, o que ele já fez, se ele é bom mesmo naquilo que o curso está propondo, e ir atrás. É claro que vale a pena. Só de você estar vivendo uma cultura OPOSTA à nossa (sobretudo se você vive em Fortaleza *rancor*), numa cidade gigante, com pessoas do mundo inteiro... É incrível. E eu faria de novo. Mil vezes. Amanhã. Hoje a noite, pode ser?
Obs: Devo dizer também que, como diriam meus amigos de curso, a moda não te quer. Dos cursos que eu fiz, as pessoas mais legais, o aprendizado mais intenso, tudo... não tinha a ver com a moda. As meninas que fazem curso de modas são magérrimas, antipáticas e vão montadérrimas (afinal, estão em Londres) pra aula. Ninguém quer falar com você porque você se veste normal e não fez aquele penteado desarrumado que em quem é anoréxico fica lindo... E sobretudo porque não está fumando seus cigarros finos (ou ainda enrolando os seus cigarros artesanalmente, vai saber porque) na porta da faculdade. Agora, as pessoas do design, ou que fazem qualquer outra coisa, geralmente são fofas, lindas e simpáticas, prontas para fazer amizade com quem DGAF sobre ser it. Com quem come no almoço ao invés de tomar só missoshiro. Com quem não tem frescura de passar uma horinha sentada no parque, sujando a roupa na grama e sendo feliz.
Obs 2: Mais posts de Londres com certeza virão.